terça-feira, 25 de março de 2008

Sobre Kátia, Nei e Chávez

Ouvindo ao programa da Kátia Suman na Ipanema hoje, levei um susto. Não gosto dela enquanto "pensadora" e não acho que ela seja, mas tenho a impressão que é assim que ela tenta se colocar na rádio. Gosto dela enquanto comunicadora pois é muito interessante a maneira que constrói o seus programas, conversando, trazendo informações e música. Acho louvável quem tem e consegue constituir uma carreira profissional com estilo próprio, principalmente nas comunicações.

Não gosto de alguns de seus posicionamentos, acho que muitas vezes ela é muito prolixa e detesto o fato de ela ter um programa patrocinado - ou ex-patrocinado - pela Aracruz. Mas hoje, como disse antes, levei um susto. Ela contou que participou de um debate com o Nei lisboa e ele dizia que acha impressionante a facilidade da mídia em chamar o Hugo Chavez de ditador se o cara foi eleito democraticamente e utiliza como instrumento de governo o plebiscito para algumas decisões. E que, por outro lado, aqui no Brasil não acontece isso. Os tantos ditadores que passaram pelo poder na história do nosso país não carregam esse título, e se seguíssimos a lógica da imprensa a Avenida Presidente Castelo Branco deveria se chamar Avenida Ditador Castelo Branco.

Em suma foi isso que ela relatou por, mais ou menos, uns 3 minutos. Não esperaria esse tipo de comentário na Ipanema e achei interessante a maneira com que ela trouxe isso para a reflexão. Enfim...

Segue um texto do Nei Lisboa, também sobre a ditadura, que saiu no Extra Classe que, infelizmente, não consegui saber a data...

AGORA FALANDO SÉRIO
Um belo dia o porteiro do seu edifício resolve fazer uso do três-oitão para invadir uma reunião do condomínio, destituir o síndico e declarar-se a autoridade suprema no prédio. Determina, a partir de então, o que pode e o que não pode ser dito nos corredores, o que o fanzine do Zezinho deve ou não publicar, e ordena que alguns moradores mudem para outro bairro, sob protestos do seu vizinho de porta, o qual, estranhamente, você nunca mais vai ver. Há boatos de que os descontentes são torturados na garagem durante a noite, mas você não chega a dar atenção, admirado que está com a beleza do saguão reformado e das novas luzinhas de Natal.

Passam os anos e os boatos já se tornam burburinhos, um corpo é encontrado no fosso do elevador, e o Porteiro-Supremo, desgastado também pelos rombos nos balancetes do condomínio, decide devolver a administração para os moradores de forma lenta, gradual e segura. Ou seja, usando uns anos mais para acalmar os ânimos e assegurar-se de que nada seja investigado, de que ele não seja responsabilizado por coisa nenhuma e receba de volta com louvores o seu emprego de porteiro. O que passou, passou, não se fala mais nisso.

Pois bem, em linhas gerais e sem gracejos, foi isso o que aconteceu no Brasil durante os anos de ditadura e de transição para a vida democrática. Uma transição vista por muitos como positiva, sem traumas, como aponta o síndico de plantão FHC. Como se o trauma já não estivesse, antes de mais nada, na brutal ruptura construída por um golpe militar e seus atos institucionais. Como se fosse possível elaborar uma normalidade absolvendo e conservando no serviço público os quadros militares, policiais e civis responsáveis por aquela usurpação do poder. Como se o silêncio imposto, marca do período, pudesse ser curado por mais silêncio, no desconhecimento eternizado de páginas cruciais da nossa história.

Nesse agosto do cachorro falando sério louco (que o meu pastor Luther confirma, lá do pátio), a anistia política brasileira completa vinte anos. Afrontando a reivindicação dos CBAs, OAB, CNBB, da imprensa e da parte desperta do povo brasileiro, o projeto aprovado em 1979 serviu para acobertar protagonistas do terrorismo de Estado, suas ações, seus mandantes. O resultado prático viu-se há pouco, quando por detalhe um ex-torturador não foi presenteado com o singelo cargo de Diretor da Polícia Federal. Vê-se, também, diariamente, nos métodos e na formação ética das polícias brasileiras, nos massacres de presos e de menores de rua, na arrogância absolutista dos que deram suporte político à ditadura e permanecem no poder.

Falou-se muito, na época, e ainda se fala, em revanchismo por parte dos diretamente envolvidos na guerrilha e seus familiares. Não me tomem por i n o c e n t e . Perdi um irmão, Luiz Eurico, morto aos vinte e quatro anos com um revólver em cada mão, ciente do que estava fazendo e do fim que poderia ter. Vindita? Claro, se topasse de frente com quem o matou, de preferência tendo uma metralhadora em cada mão, assumiria as conseqüências com prazer e com coragem, coisa que sempre faltou à ditadura, mais afeita à ocultação de corpos e à forja de laudos cadavéricos.

Mas não há o porquê de se tratar como vingança pessoal uma questão que é de todos. Estabelecer - ou não - essa relação entre as polícias e a política do presente e do passado é tarefa da sociedade brasileira. Tão mansa e festiva, ela às vezes age como um morador ainda encantado com as luzinhas de Natal, cumprimentando o porteiro na entrada e na saída, como vai, ora vejam, o senhor está estuprando a faxineira, que interessante, lembro que aconteceu o mesmo anos atrás com uma moça do terceiro andar, mas não vamos falar do passado, não é, passe bem, se precisar de alguma coisa é só chamar. E a senhora também, viu?

*Nei Lisboa é cantor e compositor

8 comentários:

Rodrigo Cardia disse...

Muito bom o texto!
Como ele fala em "neste agosto (...) a anistia política brasileira completa vinte anos", provavelmente o texto é de agosto de 1999.

Abraços

Rodney Torres disse...

Olá companheiros da mídia alternativa,
Maria do Rosário estará recebendo blogueiros, jornais de bairro e demais segmentos da mídia alternativa para um café e bate-papo na segunda-feira dia 31/03 às 8:30h no escritório político do vereador Adeli Sell, na rua Espírito Santo, 224 - Centro.
Compareçam e divulguem para todos, vai ser interessante a conversa.
Um abraço a todos
Rodney Torres
9273-1385
3220-4254

Guga Türck disse...

Grato pelo convite, Rodney.
Mas os blogueiros aqui estão propensos a votar - sem muito alarde - em Manuela no primeiro turno por razões pessoais.
Maria do Rosário somente receberia nosso sufrágio em razão de uma disputa de segundo turno, tornando nossa opção útil.
Não temos admiração nenhuma por essa senhora, pelo contrário. Seus métodos compactuam com os daqueles que afundaram aquele que tinha tudo para ser o partido protagonista da transformação da sociedade brasileira...
Mesmo assim, concordamos que a iniciativa é válida e - quiçá - seria interessante se tornar prática usual.

Abração e seguimos!

Snel disse...

Acho muito digno o que se tem feito na Argentina com relação à torturadores, sequestradores e demais envolvidos nos anos de ferro naquele país. Aqui no Brasil falta isso, mas é evidente também que os dois lados (exército e a guerrilha) tiveram papel fundamental na implantação do terror. No caso do exército, nem é preciso citar os feitos, mas da guerrilha, o qual sou contra todo o tipo de atitude que envolva luta armada, suas atitudes beligerantes e nem sempre em benefício da população em geral, geraram muitas vítimas também. Caso do rapaz que teve uma perna amputada em São Paulo nos anos 70 por uma bombas colocada num banco. Hoje esse senhor sobrevive com ajuda estatal de R$ 800 enquanto a pesssoa, porque não dizer terrorista, que colocou a bomba recebe pensão estratosférica como ex-perseguido. E agora chê? Isso é certo?

Snel disse...

Aqui está: Em 2008 remunera-se o terrorista de 1968




Elio Gaspari

Daqui a oito dias completam-se 40 anos de um episódio pouco lembrado e injustamente inconcluso. À primeira hora de 20 de março de 1968, o jovem Orlando Lovecchio Filho, 22 anos, deixou seu carro numa garagem da Avenida Paulista e tomou o caminho de casa. Uma explosão arrebentou-lhe a perna esquerda. Pegara a sobra de um atentado contra o consulado americano, praticado por terroristas da Vanguarda Popular Revolucionária. (Nem todos os militantes da VPR podem ser chamados de terroristas, mas quem punha bomba em lugar público, terrorista era).

Lovecchio teve a perna amputada abaixo do joelho e a carreira de piloto comercial destruída. O atentado foi conduzido por Diógenes Carvalho Oliveira e pelos arquitetos Sérgio Ferro e Rodrigo Lefevre, além de Dulce Maia e uma pessoa que não foi identificada.

A bomba do consulado americano explodiu oito dias antes do assassinato de Edson Lima Souto no restaurante do Calabouço, no Rio de Janeiro, e nove meses antes da imposição ao país do Ato Institucional nº 5. Essas referências cronológicas desamparam a teoria segundo a qual o AI-5 provocou o surgimento da esquerda armada. Até onde é possível fazer afirmações desse tipo, pode-se dizer que sem o AI-5 certamente continuaria a haver terrorismo e sem terrorismo certamente teria havido o AI-5.

O caso de Lovecchio tem outra dimensão. Passados 40 anos, ele recebe da viúva uma pensão especial de R$571 mensais. Nada a ver com o Bolsa Ditadura. Para não estimular o gênero coitadinho, é bom registar que ele reorganizou sua vida, caminha com uma prótese, é corretor de imóveis e mora em Santos com a mãe e um filho.

A vítima da bomba não teve direito ao Bolsa Ditadura, mas o bombista Diógenes teve. No dia 24 de janeiro passado, o governo concedeu-lhe uma aposentadoria de R$1.627 mensais, reconhecendo ainda uma dívida de R$400 mil de pagamentos atrasados.

Em 1968, com mestrado cubano em explosivos, Diógenes atacou dois quartéis, participou de quatro assaltos, três atentados à bomba e uma execução. Em menos de um ano, esteve na cena de três mortes, entre as quais a do capitão americano Charles Chandler, abatido quando saía de casa. Tudo isso antes do AI-5.

Diógenes foi preso em março de 1969 e um ano depois foi trocado pelo cônsul japonês, seqüestrado em São Paulo. Durante o tempo em que esteve preso, ele foi torturado pelos militares que comandavam a repressão política. Por isso, foi uma vítima da ditadura, com direito a ser indenizado pelo que sofreu. Daí a atribuir suas malfeitorias a uma luta pela democracia iria enorme distância. O que ele queria era outra ditadura. Andou por Cuba, Chile, China e Coréia. Voltou ao Brasil com a anistia e tornou-se o “Diógenes do PT”. Apanhado num contubérnio do grão-petismo gaúcho com o jogo do bicho, deixou o partido em 2002.

Lovecchio, que ficou sem a perna, recebe um terço do que é pago ao cidadão que organizou a explosão que o mutilou. (Um projeto que revê o valor de sua pensão, de iniciativa da ex-deputada petista Mariângela Duarte, está adormecido na Câmara.) Em 1968, antes do AI-5, morreram sete pessoas pela mão do terrorismo de esquerda. Há algo de errado na aritmética das indenizações e na álgebra que faz de Diógenes uma vítima e de Lovecchio um estorvo. Afinal, os terroristas tambem sonham.

Elio Gaspari é jornalista.

http://www.correiodabahia.com.br/politica/noticia.asp?codigo=149401

Anônimo disse...

Este texto se aplica também aos torturados em Cuba?
Pra mim cai como uma luva

Guga Türck disse...

Aqueles que estão encarcerados ilegalmente em Guantánamo nas garras do império estadunidense?!

Claro que sim!
Boa lembrança, anônimo!

Snel disse...

Não estamos falando de Brasil, aqui?! Qual tua opinião sobre o meu comentário?