terça-feira, 10 de março de 2009

Como é bom o cheiro de eucalipo derrubado pela manhã...

Saímos de Porto Alegre às 18:30 de domingo.
Depois de algumas paradas, chegamos à Hulha Negra às 3:00 de segunda-feira.
Não demorou muito para os primeiros ônibus chegarem.
Mais um tempo de espera e já estávamos rumando em direção à Estância Aroeira, na Fazenda Ana Paula, de propriedade da Votorantim Celulose.
Cerca de 600 mulheres desembarcaram e começaram o seu ato de protesto: 3 hectares de eucaliptos derrubados por foices, machados e facões em meio a gritos de protesto, hurras e saudações ao feminismo (sem feminismo não há socialismo!).
A tensão estava grande no trajeto de mais de 40 quilômetros de estrada de chão batido, em virtude do histórico de repressão que a Brigada Militar costuma acometer em ações campesinas no Rio Grande do Sul. Mas talvez os fatos de as ações orquestradas pelas mulheres terem sido "deslocadas" em um dia e a distância da estância dos centros urbanos mais próximos ser muito grande tenham servido para driblar a "inteligência" da BM.
Foram 3 horas de cortes que sequer serviram para arranhar os 47 mil equitares da lavoura de árvores da Votorantim naquele local, mas que alimentam um simbolismo há muito trabalhado pelo MST e pelas instituições que defendem a luta por alimentos, Reforma Agrária e justiça social.






Embaixo dos eucaliptos não cresce nada. As lavouras, enormes, não empregam praticamente ninguém - nada mais correto do que chamá-las de DESERTOS VERDES.
É desolador.
Quando terminada a ação, iniciou-se a marcha - aí, então, aparecem as primeiras viaturas da BM. Mas o comportamento dos policiais foi interessante. Apesar de intimidarem empunhando suas escopetas calibre 12 (não as de balas de borracha, mas, sim, de fogo), escoltaram sem grandes sobressaltos uma caminhada de mais de 5 horas, e 20km, até o local da divisa da estância com o assentamento Conquista do Paraíso, onde acamparam as mulheres da Via, finalmente, coroando o fim do seu dia com um descanso merecido.
A tensão se elevou um pouco, em virtude das pressões que começaram a "zanzar" pelos ouvidos das lideranças do movimento. Um carro do Conselho Tutelar apareceu no local, aumentando as suspeitas de que uma ação para a retirada das crianças era iminente. Perguntamos para os conselheiros se eles fariam alguma coisa, mas eles acreditavam que o promotor não queria "comprar essa briga" e eles apenas estariam por ali a pedido da Brigada.
Com a poeira baixando, já pelas 20h, decidimos voltar a Porto Alegre. O colega de Catarse, Jefferson, ficou por lá para passar a noite e registrar qualquer incidente que viesse a ocorrer. Pois, na manhã de hoje, aconteceram.
Até o momento, sabemos que a polícia destruiu a estutura do acampamento, não premitiu a marcha de continuar, apreendendo as ferramentas, fichando a todos, separando as crianças de suas mães (pra não dizer "prendendo as crianças") e levando as lideranças para a delegacia.
Assim que tivermos mais material, publicaremos por aqui e divulgaremos para a rede de blogs apoiadores.

VIVA A LUTA DAS MULHERES DA VIA CAMPESINA!!!


- as fotos são de Eduardo Seidl (clique para ampliá-las)

Leia também, no RS Urgente:
- Mulheres da Via Campesina ocupam fazenda da Votorantim e cortam eucalipto
- "Exóticos são os desertos verdes, não as campesinas"

10 comentários:

heliopaz disse...

Guga,

Os movimentos sociais tem minha defesa quase total e irrestrita em quase todas as questões nas quais estão envolvidos, sobretudo no tocante à reforma agrária, à saúde, à educação, ao esporte e à arte (infelizmente, os dois últimos quesitos são vitais para uma sociedade mais justa e são pouco valorizados).

Todavia, mesmo que a Constituição considere legal desconstruir o uso NÃO-social da terra, considero as invasões uma forma de pressão tão inócua quanto uma greve qualquer.

O que tu e os teus comentadores acham disso?

http://heliopaz.wordpress.com/2009/03/09/mst-via-campesina-ensinem-os-favelados-a-plantar-na-cidade/

[]'s,
Hélio

Guga Türck disse...

Não, Hélio, não é inócua, é a última chance, o último recurso, o único recurso...

Olha o blog A CONQUISTA DE CAIBOATÉ (http://conquistadecaiboate.blogspot.com/) e vê o resultado das pressões concretas do MST, sem isso, seria zero Reforma Agrária no Brasil.

heliopaz disse...

Guga,

Eu vi. Só que é muito pouco. E existe, sim, uma forma de, através da mídia corporativa, quebrar a lógica deles fazendo um trabalho urbano de formiguinha.

Eles ainda usam armas da modernidade contra inimigos pós-modernos. Conquistando a simpatia da classe média (ou, ao menos, da maioria pobre, a ponto de fazer parte da classe média urbana rever o que asisste na mídia), eles podem ferrar de vez a RBS.

No momento em que isso acontecer, toda invasão será bem aceita e ninguém precisará passar pelo constrangimento de ter que usar um pano pra esconder o rosto e ser retratado como bandido.

Eles tem razão. QUASE sempre. Só perdem a razão quando não conseguem executar e tampouco pensar em uma outra estratégia. Eles não compreendem suficientemente o mundo midiatizado.

[]'s,
Hélio

Guga Türck disse...

Não, não é pouco!
Modificar as estruturas de uma região marcada historicamente pelo latifúndio e, então, passar a fazer parte dessa sociedade - daquela região, daquele lugar, daquele contexto - como protagonista não é nunca pouco. Não é nem médio.
É grande, enorme, infinito.
As coisas acontecem para o MST (no caso no sentido de movimento social) fora do mundo midiatizado. Seus membros estão longe de qualquer possibilidade de participar de um mundo midiatizado. A publicidade neles em nada tem efeito, porque são pobres, sem condições de adentrar a sociedade de consumo.
Eles tentam por si só mudar as coisas, mudar a sua própria situação e - olhem só! - a do mundo!
Deste mundo midiatizado que os odeia, que os difama, que os julga sem dó nem piedade.
Sua única arma é a expressão corporal, a ação, o grito, suas mãos, seus pés, sua voz. Só assim eles conseguem aparecer, se comunicar.
Não fosse assim, seria um movimento burocrático - um Green Peace -, inócuo, aí sim.
Desculpa, mas nesses últimos dois anos adquiri experiência suficiente para entender a dinâmica da luta campesina e seus resultados no nosso estado. Estás redondamente enganado, Hélio, olhando as coisas da perspectiva do computador instalado em teu quarto. Eu, inclusive, pensava bem parecido, mas fui percebendo que o MST não é um partido, mas é um movimento em sua essência mais pura.
É simplesmente incrível.

Mas e quem vai, então, trabalhar essa questão da midiatização - necessária, sim! - da luta pela Reforma Agrária???
Nós, cara. NÓS!!!
Eu, tu, a Catarse. Nós somos a linha de frente deste exército na batalha midiática...

Cara, vamos conversar ao vivo. Vem aqui na Catarse, tem tanta coisa pra te contar...

Grande abraço.

Anônimo disse...

Guga e Hélio,
Sabem qual o espaço ocupado pela reforma agrária no Brasil? Rolf hackbart disse há poucos dias que são 80 milhões de hectares (e não "equitares"). Esses 80 milhões representam 10% (DEZ POR CENTO) do território nacional.
Acham pouco isso?

O Hélio tem razão quando fala que essas invasões são inócuas. Elas depõem contra o próprio movimento. Na minha casa eu e minha mulher sempre fomos simpatizantes do MST. A depredação na Aracruz foi um divisor de águas. A Via Campesina/MST e congêneres perderam nosso respeito e o de nossos amigos.

E vamos parar de hipocrisia, assentamento do MST é o lugar mais fácil de encontrar irregularidades ambientais. Esse papo de agricultura camponesa não cola.

Machadinho

Guga Türck disse...

Hipocrisia de quem???
Por favor, chame-me de tudo, menos de hipócrita...
Conheci dezenas de assentamentos no RS. TODOS estavam transformando uma paisagem desoladora em algo sustentável novamente.
Onde só nascia cupim, passou a nascer capões de árvores. Tinha assentamento (este de 17 anos) até com paca! E eles caçavam...
Falta de conhecimento é que é foda e isso é que gera preconceito e hipocrisia.

Vai rolar a festa de 15 anos do assentamento da Copan, em Nova Santa Rita. Vou colocar o convite aqui no blog. Vamos fazer uma delegação?

claudia cardoso disse...

Concordo com o Guga: se nós não vemos legitimidade na mídia corporativa, não há como usar a mídia corporativa para criar uma imagem [sic] positiva do MST.

Seremos nós, que produzimos outro tipo de mídia, que mostrará que o MST é um movimento legítimo, que usa instrumentos de luta legítimos e constitucionais.

Se a lei afirma que a terra é para bem servir e se as aracruzes e os latifúndios improdutivos não se prestam a isso, na hora do vamos ver, as ocupações, por visarem Á VIDA, são absolvidas.

Tanto é assim, Machadinho, que lá em 2006, 1º ano que houve cortes de árvores exóticas, a Aracruz não processou a Via Campesina! Aliás, os executivos odiaram a celeuma criada pela mídia, pois chamou a atenção para algo que não era para ser discutido, que é a formação dos desertos verdes!!!

A mídia conseguiu seu intento, e o teu depoimento é a prova disso. Para a Aracruz, o acontecido foi superado e, bem, nós sabemos o que restou dessa empresa maligna em todos os aspectos econômicos.

Acho horrível essa história que não se pode turvar a água da classe média!!! Mas que negócio é esse???? A classe média vive aprontando barraco em estádio de futebol - aqui, em outros estados e até no exterior!!!!! Porque a classe popular não entra em estádio. Quem é barraqueiro, quadrilheiro, vândalo é a classe média!!! E, ainda por cima, POR MOTIVO FÚTIL!

Se o time de futebol é campeão de não sei o que, e os jogadores v~em em cima de carro de bombeiro, congestionando o tráfego, problema algum, né?? Ninguém reclama, né??? Afinal, é o clube, é o atleta olímpico... BABOSEIRA, BABOSEIRA, BABOSEIRA!!!! FUTILIDADE, FUTILIDADE, FUTILIDADE!!!!

Então, me soa falsa essa premissa de que precisamos deixar a classe média quietinha dentro dos seus carros. A classe média, nada mais é, do que uma alienada. E com um agravante: por ter acesso aos meios de inclusão social - tv, telefone, jornal, celular, computador, revistas, cinema, teatro - teria que ser crítica e tomar consciência.

O que estas mulheres fazem, o que o MST e a Via campesina fazem precisam ter apoio da classe média, porque é a vida de todos que estas pessoas simples defendem. Não só a deles, mas de todos nós!!!

Enquianto a classe média é egoísta e cega - POR LIVRE E ESPONTÃNEA VONTADE.

Guga, eu n]ao gosto da expressão vida longa ao MST. No fundo, ela significa que a questão agrária jamais se resolverá no Brasil. :-)

Beijos!!!!!

Anônimo disse...

Ok, aceito vossos argumentos. Não acho que o mundo está certo do jeito que está. Mas não posso aceitar passivamente essas teses revolucionárias.

Só esperava que comentassem sobre o fato de que 10% DAS TERRAS DO BRASIL SÃO DE ASSENTAMENTOS RURAIS.

São 80 milhões de hectares nas mãos do MST/Incra/MDA, sendo que o agronegócio ocupa em torno de 72 milhões.

machadinho
Algum comentário sobre isso.

Marcelo Cougo disse...

Os movimento sociais de esquerda estão fazendo o que é possível e necessário para trasformar a realidade. Se essa ações trazem prejuízo junto á opinião pública, formatada pela grande mídia empresarial, bem, é do jogo, não é? Às esquerdas cabem propor as tranformações que são necessa´rias, e isso passa pela visaõ que temos das leis. Se elas não servem aos intereses da maioria, que sejam ignoradas, que sejam mudadas. As ações são importantes e significativas. A elite acusa o golpe, senão não haveria tanta tentetiva de desconstrução desses movimentos.

Um abrassss

Carlos Eduardo da Maia disse...

Impossível ser contra a reforma agrária. O MST no RS é composto de 1.400 famílias. Não é difícil assentar todo esse pessoal. Basta fazer o que fez o governo do PT em São Gabriel. O Southall saiu feliz da vida porque colocou dinheiro no bolso. No RS existem zilhões de latifundiário falido louquinho da vida querendo vender sua terra. O Cassel faz a oferta e o negócio está feito. Mas esse tipo de negociação parece não interessar à elite do MST que catequisa e doutrina os integrantes do movimento no sentido de apostar na divergência, na luta de classes e outras baboseiras anacrônicas. Interessa à elite do MST assentar essas 1.400 famílias no RS? Interessa à elite do MST resolver de vez o problema agrário brasileiro? Sinceramente, acho que não. A elite do MST aposta na radicalização dos conflitos sociais. Esse é o lema e a bandeira. O importante é ocupar fazendas, destruir eucaliptos ou plantações de transgênicos etc. Eu fecho com o Hélio, na complexidade e diversidade do mundo moderno, meus caros, apostar na divergência, na interrupção dos fluxos da vida, na invasão de fazendas, empresas e bancos fazendo pessoas do povo como reféns é uma estratégia completamente suicida.