quinta-feira, 19 de março de 2009

Reassentamento das famílias do Cristal está sendo feito às pressas e sem planejamento

Neste pequeno fragmento de vídeo, é possível perceber a Assistente Social do Demhab conversando sobre a preocupação com as crianças que estariam chegando com as famílias nas novas casas.
Isso demonstra que o remanejo está sendo executado sem planejamento, sem a preocupação com os contextos familiares de quem vai se deslocar.
Num determinado momento ela mesmo atesta: "Porque hoje essas crianças já estão perdendo o dia de aula(...), e as escolas da região não têm mais vagas".
AS ESCOLAS DA REGIÃO NÃO TÊM VAGAS PARA ATENDER À POPULAÇÃO QUE ESTÁ SENDO DESLOCADA.
Ninguém pensou nisso???

*a filmagem foi feita por um dos alunos do curso de Produção Audiovisual que a Catarse está ministrando no Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo, no Cristal (vem surpresa aí!)
**foi registrado, também, todo o despejo e o início da remoção das famílias, no dia seguinte, para o reassentamento. Os caminhões usados para carregar os móveis eram os mesmos da extinta coleta seletiva. Os carregadores eram da COOTRAVIPA, cooperativa que fazia o serviço de limpeza urbana para a prefeitura (irônico ou sarcástico isso?)
***segundos depois que a família saía de sua ex-casa, em uma das vilas no Cristal, já vinham pedreiros para imediatamente derrubarem a casa (também registrado em vídeo)
****quando da ação das mulheres da Via Campesina, um dos argumentos que foi levantado para justificar a "prisão" das mulheres era o de que as crianças participantes da marcha estavam faltando a aula, caracterizando o chamado "abandono intelectual". Pois bem, será que o "seu prefeito" será responsabilizado pelo "abandono intelectual" das crianças reassentadas e será encaminhado a uma delegacia???

Abaixo, seguem também dois relatos do dia do despejo:
Marcelo Cougo, do blog MOCOTÓ ELÉTRICO
Essa semana foi muito proveitosa para entender a lógica da exclusão em Porto Alegre. Começa com uma audiência pública para esclarecimento e deliberações no bairro Cristal. Audiência que deveria se prestar a responder as dúvidas das pessoas que estão sendo retiradas das cercanias do Barra Shopping, as que serão removidas pelo projeto Sócio-ambiental. Mas pouca coisa se resolve...
Segue a tragicomédia com a mobilização de mais de 400 PMs, fora os P2 infiltrados, na desocupação de um loteamento na Vila Nova. Esse loteamento é destinado às pessoas removidas das vilas Icaraí I e II, ao lado do Barra. Por atraso (incompetência e desrespeito) da prefeitura do Sr. FOGAÇA esse loteamento ficou à deriva durante uns meses, coincidentemente os meses pós eleições. Foi invadido pelos moradores da vizinhança. Na madrugada de terça, enquanto sobrevoava o bairro o helicóptero da BM, centenas de PMs se deslocavam para o fechamento das ruas e acessos. Um gueto onde ninguém entrava apenas saia na chuva insistente, móveis ao relento e choro livre e não ouvido. ônibus da Carris, pintados de branco, seus motoristas a postos. Caminhões de várias secretarias, um engajamento que não se vê normalmente por parte dos poderes públicos, a não ser quando se trata de repressão aos mais pobres. Que sirva de lição. A Prefeitura e o Sr. Fogaça só são lentos e incompetentes quando se trata do bem público.


Sergio Valentim, do Ponto de Cultura Quilombo do Sopapo
A brigada militar realizou uma operação de retirada de mais de 100 famílias do loteamento Campos do Cristal na Vila Nova. Foram deslocados mais de 300 policiais, que começaram a ocupar a vila às 3h da manhã, com o objetivo de acordar e amendrontar os moradores que seriam despejados poucas horas depois. Segundo relato
de moradores, a brigada militar usou um helicóptero que começou a passar em baixa altitude emitindo um som muito forte pra acordar as pessoas.
Às 6 da manhã começou o despejo. A brigada fechou as entradas da vila e não permitiu que ninguém saísse de casa, e muitos trabalhadores não puderam ir trabalhar e outros não puderam assessar suas casas.
Segundo depoimento de moradores, a brigada militar agrediu até senhoras de idade e ameaçou de agredir e atirar nos moradores e parentes que queriam ajudar os que estavam sendo despejados.
A brigada militar montou um QG numa estrutura ao lado de uma escola para propiciar a troca de guarda e a alimentação dos brigadianos, pois ficariam até o último morador sair...
Os moradores foram retirados com auxílio de caminhões descobertos da SMAM e do DEMHAB, e a chuva estragou muitos móveis de madeira que foram trasportados. Trabalhadores da COOTRAVIPA foram trazidos para limpar as casas que estavam sendo desocupadas... Nenhum deles sabia para onde iriam suas coisas e móveis. Segundo um
dos moradores, seria levado para o "depósito da prefeitura". Quem não tinha para onde ir, era encaminhado para um abrigo, mas com prazo de um mês pra arrumar outro lugar para morar.

Um comentário:

Marcelo Cougo disse...

No Ponto, Gustavo, acho que responsabilizar a prefeitura por perdas de dias de aulas das crianças é o caminho. Como fazer isso???

A turma dos Direitos Humanos poderiam ser mobilizados. É uma idéia, tem-se provas disso, não é?

Um abraço e parabéns pelo trabalho!